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Nasceu em 14 de setembro de 1924, na localidade de Takara, Vila de Shiranui, Município de Udo, Província de Kumamoto, atualmente cidade de Shiranui. A família Mabe, tradicionalmente, era dona de Hospedaria destinada às pessoas que vinham, de navio, das localidades de Shimabara e Misumi. O Pai se chamava Soichi Mabe e no Japão trabalhava inicialmente como ferroviário e posteriormente como barbeiro. A mãe chamava-se Haru. Ela era oriunda de uma tradicional família de agricultores. A família era composta de sete filhos, sendo Manabu o mais velho e em seguida Satoru, Michiko, Hitoko, Yoshiko e Sunao, estes dois últimos nascidos no Brasil. Sendo criado junto também o primo Tetsuya, após o falecimento do seu pai. Manabu Mabe imigrou para o Brasil no ano de 1934, então com dez anos, a bordo do Navio La Plata Maru. Sua esposa Yoshino embarcou no Brasil no mesmo ano partindo de Niigata.


         Planícies e mais planícies a perder de vista. Plantações de café, fazendas de criação de gado, florestas, caminhos de terra vermelha cortando a mata virgem, o canto dos pássaros, o ruído dos insetos, o barulho da queda das mangas.

         Ao aproximar-me de um fruto de mamão amarelo e maduro, corre um lagarto. É a lembrança que tenho dos idos de 1934, quando aos 10 anos de idade trazido por meus pais, imigrei para o interior (Birigui-SP), distante 600 Km da cidade de São Paulo.
         Desde criança sempre gostei de desenhar e trouxe para o Brasil os crayons que usava na escola primária no Japão.

         Lembro-me da natureza brasileira que desvendou-se sob os meus olhos, como os peixes nadando nas águas rasas das lagoas e papagaios disputando um fruto de goiaba maduro.
         E quatro ou cinco anos passaram-se num arrebatamento.

Aos dez anos de idade imigrei para o Brasil e cresci sem formação escolar especializada. Minha vida foi sempre orientada pela natureza.


Família Soichi Mabe - 1934

         Voltei a desenhar novamente. Isto era possível apenas nas horas de folga do serviço de cafeicultura, como nos dias de chuva ou aos domingos.
         A primeira vez que usei tinta à óleo foi em 1945. Naquele ano, uma intensa geada arruinou toda a plantação de café e fomos forçados a descansar. Ví uma caixa de tinta à oleo numa livraria da cidade e não resistí à vontade de experimentar.
         Em pouco tempo pintei avidamente paisagens e naturezas mortas em papelões e tábuas de madeira, dissolvendo a tinta em querosene.



Transpus tudo com tenacidade física e intensa paixão. Fico entusiasmado com tudo o que faço. Dizia o meu pai quando eu era menino: "Você é muito exaltado, meu filho".

         A medida que ia desenhando, passei a pensar, sofrer e a experimentar alegrias como se fora um desenvolvimento de mim mesmo e aprendi então sobre a importância do ato de criar.
         Naquela época, os meus estudos se baseavam em revistas de arte provenientes do Japão, ou coleções de livros de arte.
         Mesmo assim, era muito difícil conseguí-los na colônia do interior da cidade de Lins, onde me encontrava distante 500 Km da Capital, mas os meus amigos e veteranos foram sempre incansáveis encorajadores deste estranho pintor-lavrador.
         Em 1934, meu pai Soichi Mabe em companhia de minha mãe Haru e cinco filhos, viajaram ao Brasil. O que nos esperava era um serviço novo e desconhecido. Mas havia uma missão a cumprir. Nós imigrantes buscávamos no Brasil um mundo novo para encontrar um caminho a vencer.

         Com o término da guerra e o Japão derrotado, surgiu entre os imigrantes japoneses o conflito dos grupos que acreditavam na vitória contra o grupo dos que não admitiam a derrota. Assim, com a morte de meu pai, o casamento e a posição de um "quase-nissei", encontrava-me em situação difícil. Estava entre o japonês e o brasileiro, entre o "issei" e o "nissei".
         Em 1950, minha obra foi escolhida para participar da exposição da Associação dos Artistas de São Paulo; e em 1951, para a Exposição Nacional pela qual os meus amigos me cumprimentavam. Sentia-me estar sobre as nuvens tamanha era a minha felicidade.
         Naquele ano, aos 27 anos casei-me.


         Em 1953, passei a desenhar natureza morta e corpo humano, contornando com traços fortes a forma de tais objetos, compondo assim meus quadros.
         De 1956 à 1957, iniciei meus trabalhos não figurativos, mas a administração do cafezal estava tornando-se um peso demasiado para mim, pois absorvia todo o meu tempo para pintar.

Viver é lutar. É preciso que a luta seja honesta. E o maior inimigo desta luta sou eu mesmo. Meu ego quando estou de frente à tela. Eu posso registrar esta vida apenas através da pintura.

         Finalmente, vendo-me às voltas com grandes dívidas e cada um de meus irmãos tornando-se independentes, vendi o cafezal e fui à São Paulo determinado a viver como pintor.
         Em 8 de outubro de 1957 mudei para São Paulo, levando minha mulher e 3 filhos, mas não foi fácil a vida nova na cidade. A vida de pintor profissional, pela qual tanto ansiara, era mais penosa do que havia imaginado e passei a pintar gravatas e placas.
         Dois anos mais tarde, quando recebi o Prêmio Leiner na exposição das Folhas em que participaram artistas de todo o país; e em 18 de Setembro, o prêmio de "Melhor Pintor Nacional" na V Bienal de São Paulo, fiquei exultante.
         Sob o estrondoso aplauso pelas palavras do então Presidente Juscelino Kubitschek: "Parabéns, esforce-se cada vez mais em benefício do mundo das Artes Brasileiras". Senti-me plenamente recompensado como filho de imigrante.

         Além disso, durante um coquetel oferecido em celebração ao prêmio de "Melhor Pintor Nacional" por mim recebido, chegou um telegrama do exterior cuja notícia dizia: "Manabu Mabe recebeu o Prêmio da I Bienal de Jovem de Paris". Haviam passados dez dias desde o recebimento do Prêmio Bienal de São Paulo.
         A Revista Time comentou a conquista de prêmios em duas Bienais; sob o título "O Ano de Ouro Mabe", fui apresentado em reportagem de uma página desde a minha infância até a outorga dos prêmios nas Bienais.
         Minha vida mudou. Contratos com os "marchands des arts", incursões pelos Estados Unidos e Europa.

         Era preciso abrir bem os olhos.
         Em junho de 1960, o Prêmio FIAT na XXX Bienal de Veneza.
         No mesmo ano, convidado pelo governo uruguaio, realizei uma exposição individual no Museu Nacional de Belas Artes de Montevideo.
         Em janeiro de 1961, a convite da Revista TIME-LIFE fui à Boston em minha primeira viagem aos Estados Unidos.
         De Roma, Florença, Assis, Milão e Veneza para o verão ao norte da Itália em Dolomici. Ao sul Nápoles e Sorriento. Passando pela Suíça cheguei à tão sonhada Paris.
         Relíquias, museus de arte, museus... Fiquei emocionado com a Europa que ví pela primeira vez.

Ainda hoje emociono-me facilmente. Embora tenha acostumado ao mundo e as pessoas e pareça presunçoso, penso que talvez seja de caráter inocente.

         Em 1963, fui convidado por I.A.C. de Lima, Peru, onde realizei uma pequena exposição com uns 20 ítens.
         Em 1965, realizou-se em La Paz, Bolívia, uma mostra de cinco artistas nipo-brasileiros com a colaboração das Embaixadas Japonesa e Brasileira.
         Também naquele ano, fui à Washington para a exposição de 10 artistas Nipo-Brasileiros promovido pela Pan American Union.
         Em 1968, uma exposição individual no México e outra em Nova York.

Minha vida é bela. As coisas belas são o objetivo de minha vida.

         O Ministério das Relações Exteriores do Brasil organiza inúmeras exposições coletivas. Naturalmente, em cada uma destas exposições tenho viajado como embaixador cultural e é interessante como o governo trata muito bem os artistas, assim como os diplomatas também são extremamente atenciosos.
        Aos dez anos de idade imigrei para o Brasil e cresci sem formação escolar especializada. Minha vida foi sempre orientada pela natureza. Viajando pelo exterior, passaram-se dez anos desde o início de meus contatos com oficiais de alto nível.

        Para quem foi criado no interior do Brasil tudo foi um aprendizado, uma batalha para viver.
        Transpus tudo com tenacidade física e intensa paixão. Fico entusiasmado com tudo o que faço. Dizia o meu pai quando eu era menino: "Você é muito exaltado, meu filho".

        Ainda hoje emociono-me facilmente. Embora tenha acostumado ao mundo e as pessoas e pareça presunçoso, penso que talvez seja de caráter inocente.
        Minha vida é bela. As coisas belas são o objetivo de minha vida.
        Viver é lutar. É preciso que a luta seja honesta. E o maior inimigo desta luta sou eu mesmo. Meu ego quando estou de frente à tela. Eu posso registrar esta vida apenas através da pintura.

Manabu Mabe - 1969


Manabu Mabe e sua esposa, Sra. Yoshino


"Eu tenho muito que fazer ainda, que pintar sempre que puder sentir alguma coisa diferente, um prazer, porque um quadro não é uma coisa que a gente faça um atrás do outro. Um quadro é um pouco da gente".

Mabe participou durante anos da FIAC (Feira Internacional de Arte Contemporânea) em Paris e da ARCO na Espanha. Durante todo o tempo Mabe dividia sua moradia oficial no Brasil com pelo menos duas viagens à Nova York, Paris e Tóquio, onde sempre produzia. No Japão ele realizou diversas obras importantes inclusive um "Boca de Pano" para o Teatro de Kumamoto medindo cerca de 9,00 x 18,0 mts realizado em seda. No Brasil fora construído em Santos, no Farol da Barra, através do IPHAN, um mosaico de sua obra medindo 3,00 x 5,00 mts na Capela do Forte. Em 22 de setembro de 1997 falece em São Paulo.


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